Confesso que as últimas semanas tem sido complicadas pra mim. Comecei a trabalhar com Saviani tem pouco mais de dois meses, e me regozijava com tudo o que lia. Incorporei tudo o que ele dizia da possibilidade de uma pedagogia que desenvolvesse nos estudantes uma consciência diferenciada, crítica e transformadora... E realmente me encontrei (ingenuamente).
Mas... poucos dias depois de me encontrar em Saviani, recebi a indicação da leitura de Bourdieu e Passeron pela disciplina de Teoria Social 1. Admito que li a primeira página e parei. Poucos parágrafos já me bastaram para ficar com uma enorme pulga atrás da orelha. Como aquele cara (que é um dos maiores autores da nossa área, portanto difícil de ser ignorado) vêm destruir toda a minha alegria, toda a minha esperança para a educação?
Dei alguns dias, depois respirei fundo e comecei a ler novamente, disposta a, se for preciso, destruir o que eu havia construído com a pedagogia de Saviani, e se preciso, construir novas concepções (frias e cinzas) com base na discussão de Bourdieu.
Ao longo da leitura realmente fui percebendo o quanto Bourdieu consegue fazer uma análise concreta do que é a nossa sociedade e o nosso sistema pedagógico. Ele já tinha previsto até que nós, futuros professores, acreditaríamos que faríamos a diferença no sistema de ensino, sem perceber que no fundo estaríamos reproduzindo todo o arbitrário cultural dominante.
Tudo o que ele disse naquele livro faz completo sentido, e é inevitável repensar todas as nossas concepções de vida, de sociedade, de indivíduos. Depois, para dar um empurrãozinho na minha desilusão, começamos a ler Foucault, que também fez uma leitura muito real do nosso sistema, de como a disciplina estava em todos os lados nos acomodando, nos conformando, sem que percebêssemos, e como o sistema educacional, nas suas didáticas, em seus livros, na arquitetura das escolas, utilizava destes artefatos para impor sutilmente uma ordem social.
Ao fim disso tudo eu já pensava em refazer minha pesquisa, mudar todo o tema, e começar do zero. Até que surgiu uma pontinho de esperança.
Por causa de um resumo a ser feito pela disciplina de Estágio 3, tive que ler novamente o livro sobre a Pedagogia Histórico-Crítica de Saviani. E nessa leitura, agora menos focada em encontrar partes que comprovassem minha pesquisa e mais ocupada em tentar salvar o que ainda restava dela, me atentei para partes que antes tinham passado batido.
Ao reler Saviani, tendo agora lido A Reprodução, tudo o que ele disse das teorias "crítico-reprodutivistas" ganhou novas faces. O que me incomodava realmente em Bourdieu e Foucault é exímia análise do concreto, do sistema tal qual é, e a inexistência de propostas, de saídas, de algo que possa mudar essa realidade. E Saviani admite tudo o que eles disseram, mas a sua grande diferença é não parar por aí.
Admitir que toda ação pedagógica é uma violência simbólica, etc., não muda que o sistema em si possui brechas que levariam à sua própria destruição, não impossibilita de admitir o caráter contraditório do problema educacional, de assumir a movimentação histórica que existe de para superação do sistema atual, que está implícita em suas entranhas. Ele nos diz que a educação deve ser considerada como determinada pela sociedade em ação recíproca, ou seja, significa que educação também interfere sobre a sociedade,
podendo contribuir para a sua transformação.
Essa afirmação já nos abre novas portas para o entendimento da educação e para o reconhecimento de como fica o nosso papel neste processo. Mas essas duas leituras foram simplesmente essenciais para compreendermos o funcionamento do sistema educacional e, assim, conseguir enxergar o que podemos fazer e o que precisa ser feito se quisermos que a nossa atuação como professores não seja uma ação reprodutora.
Desculpem o desabafo e o tamanho do texto, mas eu estive curiosa para saber se, durante a leitura de Bourdieu e Foucault, fui só eu que estive a beira de uma "crise existencial". Espero que nosso professor também nos ajude a desfazer os nós que foram feitos com estas duas últimas leituras, nos indicando outras boas leituras como estas. Aos que possuem outras visões a respeito da pedagogia de Saviani, peço que comentem e levantem o debate, porquê meu pensamento, inevitávelmente, ainda está em contrução.
Larissa Messias